segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

13.

Todos os anos, a 16 de  Outubro, celebra-se o European Restart a Heart Day. Segundo a Dra. Erga Cerchiari do Conselho Italiano de Ressuscitação  
(traduzi porque não consigo dizer ressuscitação em inglês)
é um dia muito importante.
“Como é que se sabe que se trata de uma paragem cardíaca?” leio na página das Frequently Asked Questions de um site da especialidade. Dizem eles:
- se a pessoa estava normal e simplesmente caiu para o lado;
- e se depois disso a abanarmos e gritarmos enquanto perguntamos ESTÁS BEM?! e ela não responder.
De seguida é pedir a alguém que chame o 9-1-1 e começar as compressões no peito. Dizem eles: just do your best.

*

O coração do texto regressa à vida, isto é, volta a bater, isto é, ressuscita,
pelo aparelho de desfibrilhação da memória,
a lembrança de uma imagem moral.
É de um poema que falo, chama-se “restart the heart” e engendra qualquer coisa que não é nem pode ser mecânica, embora pulse e tenha centro.
O coração é o órgão que nutre e mantém a memória moral, a das primaveras.

*

e depois há aquele texto em que nunca dizes Hannah
o texto sobre “o ser e a separação”
(que não é o mesmo que o ser e o tempo nem o mesmo que o ser e o nada)
mas

*

paráfrase, recorte, roubo, snapshot,
e agora uma citação

For three years, out of key with his time,
He strove to resuscitate the dead art
Of poetry; to maintain “the sublime”
In the old sense.
Wrong from the start—

HEART * ART * START

comecemos com
Pound e Faia de astros alinhados
o livro nascido em Sagitário, a lua em Escorpião
o ascendente em Gémeos
o ascendente do livro é o leitor
talvez por ser este o sol que nasce quando o livro se abre
ou talvez seja um leitor que nasce quando o livro-sol desponta
e neste caso o livro é ascendente de si mesmo e do leitor
talvez que o signo do leitor seja o livro
não sei
[para algo mais formal, chamó-António]

*

há um filme chamado in a lonely place
mas não me lembro da neve
no poema, esse entre aspas erro
não morre nenhuma mildred atkinson
nem se chama ao palco um cadáver que saiba boiar
estamos em tomis, a cidade lambida pelo mar negro
foi de lá que Ovídio foi banido por Augusto
(não é preciso ir à wikipedia, está em nota de rodapé)
Mandelstam, a quem a vida também não correu pelo melhor
tinha uma mulher chamada Nadezhda
que juntou regularmente amigos na sua cozinha russa
dizem
para que juntos decorassem os poemas do marido
Nadezhda não queria que esses “erros” caíssem no esquecimento
e para isso todos tinham de sabê-los by heart

*

podíamos elencar o vocabulário da ex-carnação
de tudo o que aqui parece subtrair-se
ao mesmo tempo que se eleva a máximo
do que se perde no espaço
e no tempo
da encenação deste teatro
metáfora Lazarenta de uma morte indecisa
“tirou ou não tiro a pedra, eis a questão”
mas a pedra já foi removida
o coração já se encontra activo
ou nunca soube realmente como parar
(aquilo que tem instruções para bater
saberá morrer?)
as compressões fazem-se verso a verso
e o sangue circula pelo poema
ludibriado pelo “sentimento do trágico”
qualquer coisa como a trompeta de um anjo de pedra
num dia sem caneta

*

faz de conta que há uma língua
e faz de conta que a podemos escolher
faz de conta que o coração pode não bater
faz de conta que um livro de poemas pode ser um manual de História
uma ilustração
uma tira de banda desenhada
faz de conta que o poema é real
que ben zakhai é real
que Jerusalém é real
e que em boa verdade se pode planear alguma coisa
a destruição


o começo

*****

texto escrito a propósito do lançamento do livro teatro de rua 
da tatiana faia